A clínica da psicossomática: no compasso entre o corpo e o objeto

pulsoes

Publicado na revista PSICANÁLISE E UNIVERSIDADE – nº 3 – Págs. 99-105 Agosto de 1995

Giovanna Bartucci

 

Certos livros colocam àqueles que se dedicam a resenhá-los uma certa facilidade na tarefa. Outros, pelo contrário, são difíceis, difíceis porque complexos. É assim que percebo Pulsões: uma orquestração psicanalítica no compasso entre o corpo e o objeto, livro de Alcimar Alves de Souza e Lima, Cleusa Pavan, Suzana Pacheco e Marta Palhares, lançado pela Editora Vozes.

 

Escrito de forma extremamente clara e com aparente simplicidade, Pulsões: uma orquestração é, na verdade, um encontro da obra freudiana com o campo da psicossomática e as últimas formulações da física quântica, teorização do caos, biologia molecular. Enfim, é pouco ou fomos brindados com mais? Fomos brindados com um algo mais: este é um livro eminentemente clínico. Para além das novas formulações propostas pelos autores, o que temos é um psicanalista at work. Alcimar, de forma delicada e despretensiosa, nos convida para sentarmos ao seu lado e fazermos com ele o percurso, ou parte do percurso, que lhe possibilitou produção de pensamento clínico – no decorrer da narração dos dois casos a partir dos quais os autores apresentam suas construções teóricas. Mas a isso voltaremos mais adiante.

 

Pulsões: uma orquestração psicanalítica no compasso entre o corpo e o objeto nasceu da circunscrição e sistematização de questões surgidas durante o seminário “Teoria das Pulsões”, do curso de Psicanálise do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, durante o ano de 1990, do qual Alcimar foi coordenador. Como bem explicitam os autores, a primeira tentativa de articulação destas questões é de autoria de Alcimar. As construções teóricas e elaboração do produto final – de autoria coletiva – tomaram corpo durante as discussões em grupo que se deram durante algum tempo, e, posteriormente, do trabalho conjunto de Alcimar e Cleusa Pavan.

 

O que há, então, é uma escuta clínica que promove uma releitura dos textos de Freud, o que por sua vez possibilita a produção de novas construções teórico-clínicas. Pois bem, estas são construções que partem da formulação freudiana acerca da dualidade pulsão de vida versus pulsão de morte, dada a partir de “Mais além do princípio do prazer” (1920) – com especial atenção à pulsão de morte – em direção a uma clínica da psicossomática, que sustenta que os significantes que sofreram uma repulsa têm a possibilidade de serem construídos na relação analítica, e, desde aí integrados no inconsciente, podendo, assim, funcionar como uma barreira para as produções corporais. Entretanto, os acordes que possibilitaram estas articulações partem do princípio de que nem tudo está posto, esperando decifração. Novas produções são possíveis, no nível de representações de coisa que nunca estiveram no Id antes, propõem os autores. Nesta medida, o reinado de um aparelho psíquico fechado em representações construídas, todas elas numa primeira relação de objeto, cede lugar a um aparelho psíquico aberto a novas produções, e não apenas à repetição das representações que já lá estavam. “Está em jogo, então, a ideia de virtual, de usina, de sistema aberto rumo a complexidades, como contraponto da ideia de estrutura, conjunto fechado de elementos rigorosamente interdependentes”, nos dizem.

 

A ideia de um sistema aberto rumo a complexidades, entretanto, tem como “acorde de fundo” a teorização do caos; isto é, é possível ver-se uma ordem e padrão onde antes só havia aleatoriedade e irregularidade. Isto é, há a possibilidade de que um tipo fantástico de caos esteja escondido por detrás de uma fachada de ordem, e, o que é primordial na teorização do caos, nas profundezas do caos também estaria oculto um tipo de ordem ainda mais fantástico.

 

Temos, ainda, como “acorde de fundo”, os conceitos de entropia e turbilhões de Bérnard, os quais atuam como possibilitadores do encontro entre a psicanálise e a física quântica e a teorização do caos. De acordo com o primeiro princípio da termodinâmica, ao universo físico é oferecido uma garantia de autossuficiência e de eternidade para todos os seus movimentos, uma vez que reconhece na energia uma unidade indestrutível, dotada de um poder polimorfo de transformação. Nesta medida, não haveria perda de energia e, sim, transformação. O segundo princípio introduz, então, a ideia não de perda, mas de degradação da energia. “A energia que toma a forma de calor, por si, não pode reconverter-se inteiramente e perde, assim, uma parte da sua aptidão para efetuar um trabalho. Essa porção que não se reconverte gera uma expansão. Esta diminuição irreversível da aptidão para transformar-se e para efetuar um trabalho, própria do calor, foi designada, por Clausius, de entropia. A entropia qualifica, então, a desorganização de um sistema”, nos dizem os autores. E foi através dos turbilhões de Bérnard que Ilya Prigogine, Prêmio Nobel de Química em 1977, por suas contribuições à termodinâmica do não equilíbrio e por sua teoria das estruturas dissipativas, demonstrou que não há obrigatoriamente exclusão, e, sim, uma certa complementariedade entre fenômenos desordenados e fenômenos organizadores.

 

Voltemos, então, depois de um rápido recorrido através dos instrumentos que irão nos dar o compasso de orquestração dos autores, ao conceito freudiano de pulsão de morte. Pois que, para eles, este conceito é caracterizado mais pela ideia de produção do que pela ideia de tendência à morte. “Há, assim, dois aspectos intrínsecos ao conceito (…) o de corte/produção – que possibilita alterações/rearranjos, outras produções; e o aspecto mortífero. Ambos estão contidos no conceito freudiano e, de ambos, decorrem implicações práticas em todas as análises.”

 

O caráter criador da pulsão de morte estaria, então, em oposição ao que Eros efetua – uma massificação que não deixa transparecer diferenças entre os elementos em questão. A pulsão de morte promoveria estas diferenças ao produzir um corte sobre organizações e sistemas já estabelecidos. Atuando de forma a “cortar” um crescimento desordenado e estabelecendo limites, estaria, nada mais, nada menos, que possibilitando o aparecimento do novo. Nesta medida, o acento recai sobre a dimensão da produção: pulsão de morte como movimento de “regressão”, de corte com “liberações de energias”, capazes de possibilitar novas produções de “moléculas”, novos rearranjos, novas combinações.

 

Uma escolha foi feita. Uma escolha que parece estar diretamente relacionada com o fato de que “a nosso ver”, nos dizem, “os mecanismos de defesa – recalque, recusa, rejeição – não dão conta das conformações clínicas da ordem da psicossomática (…) – que coloca em cena um ‘real’ exprimindo-se através do Soma – e impõe-nos a necessidade de um trabalho de intercâmbio de expressões somáticas com expressões psíquicas”. Isto posto, fez-se necessário a formulação de um mecanismo específico de defesa, denominado “repulsa da castração”.

 

O que, também, está em jogo aqui é um reposicionamento em relação à “arqueologia do inconsciente e de sua captação”, sem com isso transformar a teoria do inconsciente em física aplicada. Acreditam os autores que “nas afecções psicossomáticas, as patologias que, do ponto de vista do simbólico, são produções aleatórias (de um outro campo), podem, através de construções analíticas, começar a se integrar em uma intersecção e, nesta, começar a ganhar significação”. De forma a que, então, como dito acima, os significantes que sofreram uma repulsa sejam construídos na relação analítica, uma vez que não estariam em circuitos fechados de significantes. “Depois de produzidos na relação é que são integrados no inconsciente e a partir daí podem funcionar como uma barreira para as produções corporais. As representações de coisa”, nos dizem, “são produzidas no real da relação para tentar dar conta de um real-corporal assignificante que poderá vir a ganhar posição e lugar significante.”

 

Ou seja, “na repulsa estamos em presença de algo que não consta do Id. Consta apenas do Soma. Numa conformação psicossomática, as expressões da pulsão não aparecem através de representações. Aparecem concretamente, enquanto energia que transita pelo soma, sem expressão simbólica”. Isto é, “o correlato da alucinação na psicose seria a produção, por exemplo, de um tumor, de uma diabete, ou de uma infecção, na psicossomática”, uma vez que “o que está em questão não é o real alucinatório e, sim, o real corpóreo. As marcas estão no nível do soma e deverão ser produzidas no Id”.

 

Mas para que isto se dê, torna-se necessário que compreendamos o campo psicossomático como o campo da intersecção de duas ordens distintas de transmissão: a genético-cromossômica e a edípica. Apoiados por pesquisas recentes que parecem sugerir a existência de um organizador (operador) que articularia as posições e lugares das adeninas, guaninas, tiaminas e citosinas, e, com isso acarretando diferentes produções de acordo com diferentes combinações, os autores sustentam que “essas duas ordens de transmissão são regidas por mecanismos análogos, condensações e deslocamentos”. Nesta medida, “no campo de fatores internos aos gens, temos as combinações genéticas que provêm das gerações anteriores com disparadores que podem ou não ser acionados, dependendo de cada configuração em questão. Esta determinação pode, porém, sofrer alterações influenciadas por uma outra ordem de configuração: a do universo desejante e de gozo do sujeito em questão (…) Estamos então em presença não só de configurações cromossômicas diferenciadas, com possibilidades de disparos cancerígenos ou não, mas também de injunções psíquicas que podem facilitar ou até mesmo impedir que uma neoplasia ocorra. Estamos numa zona de intersecção onde o que queremos enfatizar é o caráter complementar das influências tanto externas quanto internas”.

 

Retornemos, então, àquele psicanalista at work. Se estamos numa zona de intersecção onde o caráter complementar das influências externas e internas são de extrema importância, o trabalho analítico terá importância privilegiada. Pois, será o conceito de fractal, aqui entendido como uma possibilidade de captação de complexidade com pequeno número de dados, o propiciador de visualização de uma nova forma de organização, isto é, de uma forma de organização não substantiva: “relações abertas para complexidades e não relações de interdependência”, e, também, aquele a fornecer um método de quantificar coisas nunca antes quantificáveis. “Os fractais”, explicitam, “não são números ou formas inteiras e sim relações matemáticas, com a capacidade de descrever formas irregulares infinitamente complexas”. E, o que é de maior importância, o conceito de fractal é concebido pelos autores como a rota para o caos, e nesta rota para o caos estaria contida toda a ideia de trilhamento, a bannung freudiana.

 

“Numa sessão psicanalítica, estaríamos tendo acesso a ‘fractais’ subjacentes a conformações subjetivas. Algumas situações expostas na sua simplicidade – matrizes de grandes complexidades – serão a nossa matéria-prima. Flagrar estes ‘fractais’ através da escuta e visualização, e ter acesso à complexidade inerente a eles, é o trabalho que a transferência propicia”, uma vez que a figura repetiria a estrutura básica em escalas menores. Este pequeno número de informações seria, então, a condição de acesso a uma grande complexidade. Transposto para a ontogênese/filogênese, esta seria a maneira econômica de armazenamento de nossas experiências e a de nossos ancestrais que estariam em cena.

 

E é isto que Alcimar vai nos propiciando através do relato dos casos clínicos trabalhados, a possibilidade de “rastrear” junto com ele as posições e lugares que o analisante pode ocupar durante uma sessão. E mais, os autores ampliam a concepção de transferência como possibilitadora de uma operacionalização de uma marca real. “Entende-se por marca real o acontecer vivencial da relação: o olhar (do analista) em direção à concavidade que surgiu com a retirada do tumor (do paciente).” “O que foi visto como diferente do ato sintomático é que este funcionou, nesta análise, como o ‘terror’ que instauraria uma ‘neurose traumática’. Funcionou como um momento X, um acontecimento (…) O ato em questão não pertencia a um campo de determinação, como aqueles presos ao campo da linguagem. Ele estava no campo do acaso, percebido posteriormente pela compulsão de repetição, emanação da pulsão de morte, porém tentativa de ligação propiciadora de significação para a quele Acaso.”

 

Da concepção de pulsão de morte como possibilitadora de alterações e rearranjos, isto é, corte e produção, à ampliação da concepção do conceito de transferência como possibilitadora da operacionalização de uma marca real, o que temos aqui são psicanalistas que, movidos pelo desejo de ampliação daquilo que circunscreve a possibilidade de analisabilidade de seus pacientes, vão buscar em outras áreas instrumentos que lhes possibilitem escutar aquilo que não tem possibilidade de ser falado. Uma vez frente a isto, como instaurar o novo?

 

“Um novo poderá ser instaurado, não somente pelo jogo significante do universo de palavra, mas por acontecimentos privilegiados no desenrolar de uma análise. Neste sentido, um escuta mais ampla que a da palavra ganha maior relevância, assim como o ponto cego do analista (…) poderá ser elemento catalisador de construções possíveis e não apenas obstáculo para a análise”, nos dizem com propriedade.